11.13.2011

Governar é construir estradas!

Memórias livres da inesquecível viagem com Ciro Albano e Edson Endrigo a Caetité, no rico sertão ornitológico da Bahia - Ilustre carona do Rei do Baião, Spix, Pacheco, Waldick Soriano e demais ornitólogos que desbravaram a BR030

A BR 030 é um mito na vida de todo mochileiro do Brasil. Qualquer hippye de beira de estrada, tipo "pirado em BR", sabe de cor a história dessa estrada improvável. Criada nos anos 70 pra ligar Brasília às minas de urânio na Bahia e às magníficas praias da península de Maraú, a estrada é um típico projeto clientelista interrompido por motivos eleitoreiros. Estrada inexistente em boa parte do trecho e bem asfaltada nos outros. Contradições de nosso Brasil varonil.

Por caprichos do destino já passei algumas vezes pela BR 030. No século passado com a ainda namorada cruzei o trecho central. Na década passada, com a família enfrentei os atoleiros da beira-mar. Agora, em meio à caatinga verdinha, o seu asfalto negro me leva rumo a Caetité. Velho Chico nos aguarda.

Quando estive por aqui a estrada era somente terraplenagem, mas BR também evolui e hoje o pavimento lisinho, do Lula, garante o rolar tranquilo de um urbano Dobló cheio de lentes, tripés, fotógrafos e birders. O ponteiro marca 140 km/h enquanto o sertanejo arretado pisa fundo no acelerador.

Seguimos sertão adentro. Ah... Essa vida pé-na-estrada... Em 1830 Spix e Martius por aqui passaram, depois veio Teodoro Sampaio e agora a gente. Seguimos em frente, vamos à procura de um obscuro tiranídeo, muito minúsculo, menor que um bico de harpia.

Eis, então, que Luiz Gonzaga, rei do baião, aparece numa curva do caminho e oferece a trilha sonora óbvia desse trecho.

"... Minha vida é andar por esse país... pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações..."

No sertão o sol também se põe, em certa hora a luz se acaba e com ela vai também a minha autocrítica. Agora faço parte de um conjunto patético de três birders cantarolando...

Corte rápido para um Brasil moderno. Já é noite em Caetité, cidade do futuro, em plena febre da mineração, da ferrovia e energia eólica. O recepcionista do hotel avisa que tem somente um quarto disponível... Pelo menos tinha quatro camas. Ufa! Seiscentos quilômetros de BR 030 desabam junto comigo em uma delas.

Manhã de passarinheiro não tem café. Nenhum hotel decente se digna a fornecer um breakfast pra esses malucos que acordam de madrugada. Que sacanagem! Resmungo enquanto engulo o café fraco, morno e envelhecido, padrão garrafa térmica de porteiro. Partimos.

Caetité é agradável, mistura passado e progresso, casarões e predinhos. O arretado Dobló desliza pela Avenida Waldick Soriano - ilustre filho da cidade. O clima é ainda ameno enquanto aguarda o sol.

Percorremos chapadões, grotas e campos. Transição de Caatinga a Cerrado e capões de mata úmida... O que será que Spix fazia nas madrugadas frias do sertão? Procurava a ararinha-azul, imagino, mas pra nós, viajantes do século XXI, tudo que restou é a suprema aventura de buscar um minitiranídeo, endêmico e raro. Um microscópio seria mais adequado, mas a resolução de 24 Mpixels e a lente 500 mm permitem uma esperança no enquadramento.

O resto você sabe, é scanner, induzir a resposta com glaucidium, afiar os ouvidos para identificar os presentes. Rotina de auscultar a caatinga, deitar um novo olhar sobre a vegetação. Incrível tudo o que tenho pra ver aqui, e que tantas vezes olhei e nunca vi.

Aprender é criar estradas! Nossa mente é uma BR 030, cheia de buracos, lacunas e também trechos pavimentados, de alta velocidade, é um projeto inconseqüente, de aprendizado mal planejado, saboroso e sofisticado. Observar é descobrir significado, é o saber reconectado... Onde antes havia cerrado, agora caatinga. Muita atenção, a mudança vem do chão... Solo alcalino se acidifica, a vegetação se modifica e no extrato superior os passarinhos vêm e vão. Vantagem das asas.

Tudo muda, depende do olhar. Nova descoberta: a esburacada estrada de terra, onde caminhamos, é na verdade um novo trecho da mesma BR! O campo aos poucos vira grota. O sol se levanta e a caatinga vira mancha de cerrado, ecótono de cigarras e barrigudas. E eu percebo aquela borboletinha no alto da árvore: É ele, o passarinho tão procurado!

Assim é o sertão: para os gananciosos é minério, para os pragmáticas é ferrovia. As mentes poéticas enxergam a beleza, as bregas, o Waldick Soriano. E eu, meio hippie, meio Spix, enxergo, finalmente, aquela ave amarelada, duas estrias brancas nas asas, cauda proeminente, sobrancelhas clara, bico afilado. Mais que tiranídeo, um rincociclídeo, pipromorfídeo. Resumindo, um "lifer”! Reconhecido, listado, anotado. Bem obervado, resisto à tentação tecnaturalista de fotografar... saboreio o momento, vivo o prazer e registro a memória

Mas vamos em frente que a BR nos espera! Que surpresas a ela nos reserva? Não saberei dizer. Só sei que para aquela antiga namorada, hoje companheira, eu levo um pacote de café, o "Saboroso de Caetité", uma bela cidade do sertão que nos deu os ilustres Anísio Teixeira, Waldick Soriano e Prisco Viana...

Simbora!

PS - Pra ser sincero, o café não era lá aquelas coisas, mas pelo menos estava quentinho, feito na hora.

PS2-Publicado inicialmente na secção TECNATURALISTA! da revista Atualidades Ornitológicas - 159 - assine a AO e ajude a manter esse ícone da ornitologia brasileira.






Um comentário:

Jeanne Duarte disse...

Delicioso relato de viagem. Deu vontade até de passar na esburacada...Não o conheco, mas, meio hippie que é, está mais para escritor! Parabéns!