2.04.2014

garçotas

Garçotas...



Publicado originalmente na Atualidades Ornitológicas
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Não se sabe ao certo quando surgiram pela primeira vez. Começaram a aparecer, simplesmente, talvez inofensivas; seus pequenos olhos negros, seguiam atentamente meus movimentos, sem que nada indicasse maldade. A única coisa certa é que o tempo todo mantinham o gado sob controle. A cada boi, cada vaca, uma pequena garça branca ao lado.

Agora o pasto oferece uma paisagem estranha de se observar. Gado nelore branco, capim braquiária verdinho e pequenas garças brancas acompanhando cada animal. Aparentemente existe uma relação muito forte entre eles. Impossível determinar o que se passa na mente de uma vaca. Provavelmente ruminar exige um esforço mental sobre-humano. Isso talvez explique o olhar bovinolácido, misterioso. A garça, por sua vez, com a cabeça fina e pescoço longo, camufla seus sentimentos e intenções.

O desequilíbrio ecológico tem como característica gerar alterações insuspeitas no funcionamento do mundo. Uma borboleta que voa aqui, uma tempestade que acontece na China; quem pode estabelecer relações causais? Pantanal, Jalapão, fragmentos de mata atlântica. 


De onde surgiram essas garças? O fato é que o gado deve ser abatido. A qualquer momento chegará o caminhão e centenas de reses deverão embarcar. Com seus olhares miúdos elas me encaram olho no olho e seu bico fino parece indicar uma saída. Difícil prever o comportamento desses animais; o estresse do embarque, a perda das referências.

O sol forte me castiga os olhos. Sinto falta de óculos protetores. O capim reflete uma quantidade grande de luz e o gado branco, livre de carrapatos, aumenta o contraste. Pecuária deveria ser classificada como uma atividade de risco. Notícias esparsas vindas da região centro-oeste dão conta que em Matupá cidade de fronteira agrícola com a pecuária em expansão foram encontrados vaqueiros com os olhos vazados. O pânico se instalou, houve desespero e nenhuma explicação plausível.

Fala-se muito em desequilíbrio ecológico, mas pouco se estuda o desequilíbrio mental de certos animais...Afastadas dos juncos, alijadas de seus moluscos e peixes, o que restaria a essas pobres garças se não migrarem? Procurar junto a espécies mais fortes o abrigo que lhes foi tirado pelos homens? Adotar uma vaca pode parecer bizarro, mas talvez faça sentido: um fornecimento regular de carrapatos, a segurança do grupo, uma nova identidade sócio-ambiental. Sem falar na sombra. Para quem só olha o lucro, esse benefício pode custar os olhos da cara.


Arte de Guto Carvalho sobre foto de Edar Beaza
Guto Carvalho São Paulo-SP

1.17.2014

Copassarinho

Copa no mato

Eu tenho um defeito, eu amo o Brasil. Pronto falei! Isso deve ser um defeito de nascença. Amo viver no Brasil. Amo e odeio. Amo esse local, essa paisagem, essa geologia e acima de tudo amo essa natureza e esses passarinhos. E odeio um monte. Nem preciso listar tudo aquilo que é bem brasileiro e que me envergonha, até porque é um sentimento coletivo… 

Mas olha, sinceramente, não chego ao extremo de odiar o futebol… até que gosto.
Gosto de jogar, brincar de bola, assitir um bom jogo. Não tenho um time do coração, nessa religião também sou ateu... mas quando garoto - e juro que fui garoto até pouco tempo atrás - eu sempre assistia a copa do mundo. Era legal. Mais legal quando copa era bem distante, tipo no tempo e espaço… a melhor copa é aquela que foi lá longe e há muito tempo atrás. A próxima é obviamente a pior...

Sim, pois graças à evolução,  a copa do mundo é um hoje evento em extinção - e não queremos salva-lo! Explico. Anotem aí. Essa copa do Brasil é a última das copas. Daqui pra frente é decadência certa.  O futebol é hoje transnacional. Os grandes times são a unidade fundamental. Seleções nacionais perderam o sentido, não apenas pra quem assiste, mas acima de tudo pros jogadores.

Um jogador joga por seu time, por sua equipe. Jogar na copa do mundo, jogar pra cbf ou fifa é tipo pagar imposto, tem que pagar, foi convocado? OK a gente paga, mas não com prazer…

O resultado é um futebol mixo… um espetáculo decrépito e corrupto. Bons exemplos não faltam desse desinteresse. Em cada copa vemos mais e mais seleções que amarelam… perdem o interesse e a garra: França e Inglaterra em 2010, Brasil, Holanda e Camarões em 2006, Ioguslávia e Hungria em 1978... e por ai vai… .

Pois veja bem se um jogador parar pra pensar… de que vale jogar a copa???  Acrescente-se a isso a montanha de corrupção da fifa e... - vejam só - teremos copa no katar… é o começo do fim. A copinha, da fifinha.

Mas o mundo é assim, rei morto rei posto. Já que a copa do mundo está em franca extinção temos que pensar em um modelo alternativo.


Copassarinho

 

Já sei!  Vamos criar a  Copassarinho! Vamos todo mundo pro mato, a  passarinhar durante a copa. Tipo um detox. Galvão-detox. Spa de desintoxicação. Spassarinho! Bora passarinhar. As regras são simples:
  1. Todos pro mato
    1. quanto mais longe melhor
  2. Quem fotografar mais espécies ganha mais pontos.  
    1. espécies verde-amarelo valem mais ainda
  3. Foto no dia de jogo da copa valem o dobro. 
    1. Se o jogo for do Brasil, vale o dobro do dobro. 
    2. Se a foto for na hora do jogo valem um monte 
  4. Fotos feitas no exato momento do gol do Brasil valem um dobrão.
    1. usaremos o exif para confirmar local e hora.
  5. Prêmio especial Xeno-canto para vocalizações gravadas sem a presença de rojões ao fundo
Podemos também criar a wiki-copa, a xeno-copa e a taxeus-copa… culminando na copavistar, hehehe. Pensando bem… temos que nos cuidar, pois imagine se o time do E-Bird vier jogar, estamos fritos…

Mas não se deixem abater, com a criatividade brasileira, podemos inventar mais e mais copas… existem muitas outras melhores pra se jogar. Uma delas por exemplo é a copassarinho… onde somos os vice-reis absolutos… A Colômbia bem que tenta… mas o Brasil ano a ano, bem treinado pela CBRO, tem aumentado sua lista de espécies.  Em breve seremos campeões do mundo (amo o Brasil) … isso se não revertermos a perda de espécies( odeio o Brasil)…


PS - falando sério, se você quer aproveitar os inevitáveis dias de jogo e passarinhar tranquilo, junte-se a nós!!  Vamos organizar a copa no mato??? Aceitamos sugestões...

1.11.2014

As arveres semos nozes

Publicado originalmente  an AO
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“As àrveres semos noses” 


Construí minha casa embaixo de uma tipuana. Aqui nasceram meus filhos e fiz a minha carreira. Em sua sombra eu parava o carro, e ali mesmo ele foi roubado… que bom, abandonei o carro mas fiquei com a árvore. Meus vizinhos eram os passarinhos: sanhaço, bem-ti-ví e curruíra. À  noite vinham os morcegos, mariposas e lagartixas que se aproveitavam da escura copa.

A tipuana tinha 15 anos. Era jovem, bem formada, tronco sadio. Uma bela árvore.

Mas uma ávore talvez não tenha direitos em uma sociedade mal educada, e por ser um pouco inclinada, com o tronco pendendo para a rua, a minha tipuana começou a colecionar inimigos. O pizzaiolo, o vendedor de pães, a vizinha gostosona e burra, o mecânico da moto, o sem-teto que invadiu a casa de frente. Todos olhavam com desconfiança para a minha casa, ali embaixo da tipuana: "… essa árvore vai cair, vai ser uma tragédia… vai destruir os carros, matar alguém…"

A ignorância mata, árvores não.


Ao contrário dos meus vizinhos a árvore é sábia e continua sua corrida rumo aos raios do sol. Meus aliados são os passarinhos, insetos, abelhas, aranhas, lagartos e toda uma fauna arborícola, na qual me incluo decididamente.

Morando ali eu aprendi sobre o inverno e verão: suas folhas eram o meu calendário e eu brincava de sincronizar com sua floração. Observando o movimento das folhas eu podia prever o tempo, numa espécie de barômetro biológico.  Também os ventos predominantes - sul e noroeste - espalhavam em sua sombra um rastro de sementes e mudas… 


 


Pois é, em tempos de aridez política, de ignorância expressa, é óbvio que meu sonho arborícola não poderia durar por muito tempo. Um dia parou um caminhão aqui em frente. Começaram a derrubar a minha árvore-casa. De nada adiantou protestar, a árvore era sadia, pois a sociedade está doente. Tronco sadio, copa sadia, livre de cupim, livre de podridão. Seu único mal era ser meio torta, meio inclinada pro meio da rua.

Mais de 30 homens, 3 caminhões. Cortaram a luz, furaram o cano, cortaram a água, cortaram o tronco, os galhos, as raízes. Por fim, amarraram a resistente raiz no caminhão, e puxa, e tranco, até que sai…

Árvore é como dente… a gente sente a perda e fica remoendo as lembranças a cada passagem da língua pela gengiva despovoada. 




Hoje não tenho mais casa, mudei-me para a edícula, onde articulo meu plano de vingança. Sementes da tipuana, batatinhas de tiririca, mudas de quebra-pedra.  Somente sementes resilientes nesse estado de guerra permanente. Jardinagem será minha guerrilha urbana. 



O exército está pronto para o ataque: erva de passarinho, fumo-bravo e cortina, assa-peixe, beldroega e dezenas de outras espécies sem nome, mas determinadas a espalhar a vida, contra o concreto. Cada fresta de muro, cada buraco no asfalto, cada pedacinho de terra exposta será semeado. Começamos pela calha do telhado da vizinha gostosona (e burra), depois, a caixa de passagem da pizzaria, a caixa de luz do sem-teto, o esgoto do mecânico de motos… 




Fumo-bravo não é a árvore mais linda do mundo, tiririca não é o orgulho do meu jardim, quebra-pedra tampouco. Mas os tempos são de guerra, e não escolhemos soldados. Se no campo a sucessão começa com as pioneiras, aqui na selva de pedra começa com as guerrilheiras. 



1.06.2014

Triste Utopia

Enquanto o carro desliza pela estrada de terra, o termo mar de cana vem direto na minha cabeça. Tremenda injustiça. Mar é uma coisa cheia de vida, bio diverso, azul e com  ondas. As curvas de nível modulam a paisagem enquanto descemos a colina rumo a velha usina. Ruínas. A chaminé de tijolo aparente, testemunha um tempo de bonança. Uma centena de andorinhas nos fios elétricos, os olhos bem treinados indentificam as fileiras de  aves: Andorinha doméstica grande e Andorinha-pequena-de-casa. Ao fundo canta um joão-teneném, dois tizíus

Um brejo, corguinho, figueiras centenárias...  esse lugar devia ter sido um paraíso dos passarinhos, antes do sertão virar mar. Urubus posuam na velha chaminé. Tesourinhas nas ávores. Uma breve pausa, e logo a estradinha mergulha no canavial , enquanto os termômetros elevam-se a marca de 98ºF. 

Dois carros, um menino, duas senhoras, seis rapazes, todos passarinheiros, em busca do primeiro registro do triste-pia em terras paulistas. Passarinho, icterídeo, que migra de norte a sul das américas, fugindo dos rigores do inverno meridional. Um dos mais corajosos migrantes entre os songbirds americanos. 



Os dedicados passarinheiros da região utilizam alta tecnologia para procurar novos hotspots para observar. O brejo foi encontrado pelo google maps, o que faz todo sentido, pois é uma quase invisível depressão em meio à plantação. Ao seu redor uma faixa de reflorestamento, com vigorosas mudas de um ou dois anos. Visível pelo satélite, a mudança da paisagem dá seus passos iniciais.  A embaúba, bananinha de macaco, é árvore pioneira, de ciclo curto, cresce rápido e forma sombra para a recomposição da floresta. No topo um casal de aves, o binóculo ágil confirma a suspeita. Alí estão, logo de cara os tais passarinhos - a faixa característica na cabeça, porte de Garibaldi, penas estriadas, longas unhas. Identificação positiva, o grupo observa e tenta diferenciar os tais icterídeos entre a folhagem e um casal de tico-tico que ali pousou somente pra criar confusão. Observar aves é a arte da urgência. Enquanto penso isso, os bichos mergulham e a foto foi perdida no capim alto. 

Seguem-se três horas de sol e calor intenso. Casais de caboclinhos, águia pescadora, canário do mato, mergulhão pescador, freirinha... nada disso tira o foco do animado grupo. Cadê o triste-pia!!! 


Pausa para o almøço, parte do grupo fica, compromissos diversos, os outros persistem. Retorno ao mar de cana, a sede da fazenda, uma capela caindo aos pedaços, consagrada a São João, patrono da usina, mais canao, e enfim o brejo. Voltamos a procurar o tal passarinho... mas  no meio do caminho um canário-do-mato diverte-se com a fartura de sementes. 

Enquanto observo o canário, ouço gritos abafados de alegria. Levanto os olhos e vejo o grupo todo feliz, excitado! Sucesso, todos observam, fotografam. Hora de conferir o registro. O casal posa, voa, pousa e posa novamente. Luz de lá, luz de cá. Registro feito, sucesso na empreitada. 



Triste-pia e a gente festeja
Gustavo e Murilo

Alegria e companheirismo. O prazer de ver um trabalho generoso de um grupo de amantes das aves e da fotografia. Orgulho de fazer parte de uma geração que está mudando a história das aves brasileiras. 

Bobolink é o nome do passarinho nos Estados Unidos. O guia de campo, versão traduzida, apresenta a plumagem reprodutiva preto com amplas faixas amarelas. Apesar disso a identificação é positiva. Quanto tempo essa ave passou desapercebida por ai, voando baixo nos capinzais e brejos? 


Triste-pia - Bobolink

O mapa do ebird não deixa dúvidas, Bobolink voa do hemisfério norte em busca do verão,  e o registros da espécie revela um inusitado mapa da observação de aves em escala continental. Pra onde vai o bobolink???  

Utopia, aquele lugar que não tem lugar. O Brasil é a terra da utopia e esses migrantes por aqui se aventuram desde os tempos imemoriais, antes da usina, antes da capela, antes do sertão virar mar, desde o tempo das  andorinhas,  companheiras de viagem, aquelas que pousam nos fios.

Aqui nos tristes trópicos, aquele enorme contingente de passarinho desaparece, some das estatísticas e vira registro pontual. Triste utopia.  

Ano a ano, em busca de refúgio do inverno, em busca de uma vida melhor, os bobolinks migram para lugar algum, eventualmente terminam num brejo isolado, perdido no mar de cana. Movido por seus instintos, em breve eles devem partir, uma jornada de mais de 10.000 quilômetros pela frente. Ano que vem, como todo ano,  estarão de volta.  Ao redor do brejo, a estreita faixa reflorestada vai estar mais crescida,  e uma animada galera de observadores estará na espreita. 

Pois é... alhando ao longe, com um binóculo, a gente consegue ver alguma esperança. 


















1.05.2014

Curioso...

Publicado originalmente na Atualidades Ornitológicas
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Curioso





O motor tem baixa rotação, justamente para diminuir o aquecimento, o resfriamento é feito com soro fisiológico, os fragmentos de osso são retirados da face frontal externa do seio facial e colocados sob a membrana cuidadosamente separada do tecido ósseo basal do seio facial. Utiliza-se para isso um raspador semelhante ao pegador de sorvete.

Assim, delicada e rude, é a chamada cirurgia de levantamento dos seios da face, utilizada pra recompor tecido ósseo na maxila e permitir o implante odontológico. Anestesia pesada na boca e parte da face. Um cirurgião dentista e dois assistentes debruçados sobre minha cabeça e a boca aebrta, arreganhada. Lábios esticados e motor girando. A luz forte cega a pupila.

E eu ? Bem, eu estava ali no centro dessa confusão, objeto e agente. O que é que eu fazia? Observava e refletia. Mesmo em face do sofrimento, da mutilação, ainda que controlada. Mesmo em face do torpor químico e psíquico, eu observava e, curioso, tentava entender. Pode ser irônico, mas essa cirurgia, além de revelar o estado decadente de minha arcada dentária, revelou-me a essência de minha psiquê. 



Sou um observador.

Sou um observador inato, que o tempo todo olha a realidade e busca sentido. Seja o passarinho estranho cantando ao lado, seja o avião a jato que cruza o céu em alta velocidade, seja o gavião planando acima da presa (o que será que está caçando?) Sou curioso e isso me mantém vivo. Sou observador e isso me mantém atento (e vivo).


Observar aves é o lado mais humano desse modo de ser. Ave é a vida com asas. A vida que voa. Essa liberdade aumenta o caráter poético da sua observação. Mesmo assim o que conta é a curiosidade. O que será que o sabiá está comendo lá no telhado? Por que os pombos começaram a voar em círculos. Que estranho esse pitiguari ali no fio... Ptqueopariu!!! Observo permanentemente, automaticamente e sempre para tentar entender.

Quero saber: isso é ou não alienação? Isso é deficiência afetiva? Ou o que seria? Freud explica? Sim, provavelmente, mas não me importa. Sou assim. Curioso e observador. Observador e curioso.

Certa vez, vi um OVNI. Sim, um OVNI de verdade, daqueles reluzentes e não uma mera Elaenia metida a besta. Um objeto voador (quatro na verdade) brilhante que cruzava o céu a velocidade estonteante... sem ruído, todo luz e mistério. Mesmo diante da experiência metafísica de uma possível vida extraterrestre eu, altamente concentrado, curiosamente observava... Distância constante, velocidade estável, sentido sudeste, nor-nordeste, levemente azulada, silenciosos, acima da camada de nuvens.

As cirurgias têm esse caráter estranho e durante um tempo restrito terceirizamos o controle de nossa matéria e em certo sentido, morremos parcialmente pelo menos naquele segmento de tempo e naquela parcela maxilar de nosso corpo. Vamos combinar que os OVNIs também são estranhos.

Cirurgias e OVNIs são experimentos filosóficos extremos, em que, de certa forma, aprendemos sobre nós mesmos e como nos comportaremos diante do intangível. Eu, de minha parte, já aprendi: morrerei assim, observando, curioso pra saber como é que é o final.

Amém.



1.02.2014

I Love Lista!

I love lista

O mais legal de passarinhar é fazer listas*

* #prontofalei, não tenho vergonha de ser um "lister".

Começo de ano! Lista de desejos e resoluções, lista de viagens, lista de lifers pra 2014, nova lista de espécies do CBRO… Oba!!  Eu adoro listas… Esse ano já fiz duas novas! A lista de hoje e a lista de ontem. E passei horas atualizando minha lifelist.

Aliás eu acho magnifíco  o conceito passarinhístico de lifelist: A lista da Vida, isso talvez seja a grande expressão poética de uma planilha excel. 


Mas o meu passado me condena e tenho que confessar que até pouco tempo eu não mantinha uma das aves observadas. Sei que é uma vergonha, ou melhor, uma mera preguiça técnica, resquícios de meu passado de fotógrafo, quando eu era fissurado no bitmap, metadependente de metadados.  A lista era mero sub-produto, no meu modo tosco de ver, hoje não mais!

A experiência de observar uma ave é única e merece um lugar de destaque na lifelist, na minha lifelist. Que é minha, só minha. Não divulgo, não comparo, não compito. Ou melhor, divulgo, comparo e compito, comigo mesmo. É cá entre nós, eu comigo mesmo. Um exercício permanente de disciplina e ética. 

To list or not list... Ahh o grande dilema da vida de um passarinheiro... 

Sabe como é, tipo Sanã-parda. Outro dia eu vi uma. Daquele jeito né, no meio do pirizal, na brenha verde do brejo úmido, uma insana sombra parda passando de lá pra cá… mas era ela. Com certeza. Respondeu ao playback, veio olhou, chegou aos meus pés… cantou ali escondida. Maledita! Nada mais do que uma nesga de olho me olhando do meio do cisco. E aí como fica??? Qual o limite? Vale o registro?? Coloca na lista como "ouvida" ou "vista" ?*

Apesar de descrente, nesses momentos sinto falta da fé, do confessionário. Um confessionário ornitológico, onde pudesse colocar minhas dúvidas éticas, saber enfim se devo ou não computar a insana sanã na lista natalina. Invejo a ontológica
objetividade da fotografia.  Se tem foto tem registro caso contrário simbora ralar mais um pouco. Manda o  playback, pra ver ralídeo tem que ralar. 

Não! Menos por favor. Acho que prefiro a dúvida, a dívida ética que me move em busca de novas experiências!!  Mas reafirmo, sou um lister, aliás comecei a me considerar birder no momento em que comecei a listar, colecionar.*

Dona Marilene também adora colecionar, cacarecos. Nossa casa é cheia de lindas bugigangas… eu odeio isso, e também os seus gatos, mas enfim ela é colecionadora, cata-trecos.*

Eu não... Gosto de olhar pra frente! Não gosto de nada que se estrague com o tempo, nada que se deprecie, nada que precise limpar ou tirar o pó. Nada de manutenção.

Impermanência… quero que as minhas marcas se apaguem, que as pegadas se desapeguem…


Minha coleção não é de coisas, não é de objetos. Minha lista é de empenhos, de conquistas, lista de dúvidas, de histórias. Lista de encontros, não de arquivos. 

Minha lista é de vida: lifelist.

* sem moralismos... cada um com sua preferêcias...
** inpire-se aqui e aqui vendo a vida de grandes listers




Anexos: 

  1. Se você é assim "quinem" eu, recomendo o Táxeus o paraíso dos listeiros.
  2. Positivo operante:
    Sou cético, frio e calculista.  Adoro matemática, física e ciência exatas. Descrente, não acredito em OVNIs (exceto alguns do gênero Elaenia). Por tudo isso, eu penso que  astrologia é uma enorme pataquada. Sem concessões.
  3. Uma concessão: 
    sou virginiano, afinal nasci no ultimo decanato de Agosto, nada além disso,  bem…,  confesso que tenho mania de organização, que minhas gavetas são super arrumadas, sou extremamente crítico e detalhista e adoro listas.
  4. Listo logo existo.
    Antes de mais nada, eu faço um lista do que pretendo observar. Depois de terminar, naturalmente, listo o que foi visto. 
  5. Seja criativoFaça diferentes listas, lista do local visitado, de gêneros, de Cotingídeos. A gente reconhece um bom passarinheiro olhando as suas listas. 
  6. Minha gaveta predileta
    Tenho uma gaveta especial, a sétima (contando de baixo pra cima), onde eu guardo todas as minhas lista já realizadas. Colado na tampa, a realização máxima: um índice, uma magnífica lista das listas.
  7. Sou um meio geek
    Todo geek, é lister. Fomos abençoados pela automatização que a vida digital nos proporciona. Vc. já parou pra pensar que o Wikiaves nada mais é do que uma grande lista de listas de fotos ? E que o seu perfil no facebook é na verdade uma extensa lista de status? Mesmo esse blog que vos fala é uma lista...
  8. Fotografar é listar.
    Em última análise deixando de lado aquele aborrecido bitmap de tons RGB, o que resta, na essência é uma lista de espécies. Lista pela qual todo passarinheiro de respeito se esfola, rala, sofre, enfrenta sol e chuva, poeira e estradão… enfim, se diverte e vive feliz.
  9. Binóculo é tosco.
    Essa afirmação acima é tosca, muito tosca, eu sei… Mas binóculo não faz lista… isso é inadmissível. Pôw, um binóculo bacana custa mais de 3.000 dólares. Tem um conjunto óptico admirável e por ser binocular, mantém a tri-dimensionalidade do passarinho, potencializa o orgasmo ornitológico, um show!!! Mas não faz lista… e isso o deixa mais tosco que uma camereta xingling mezzo-zoom. Tem usar lápis e papel pra listar
    . Argh!!! t
  10. Eu amo Excel.
    Linhas e colunas, matrizes, listas tridimensionais! Realmente amo uma planilha. e posso afirmar: alguns dos melhores momentos de minha vida foram passados em frente a uma planilha .xls.
  11. to be continued...

12.27.2013

Merde!


Publicado originalmente na Atualidades Ornitológicas
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Merde!

Cada troço mais diferente um do outro. O de sapo é melado, gosmento... De lagarta é seco, farinhento; do jacu um monte de caroço, coquinho. Da aranha, espirrado e do marimbondo, branquinho.

A análise das fezes dos animais da roça fornece um rico panorama das diferentes estratégias de sobrevivência e formas de alimentação. Por exemplo: existe a turma da bolinha, que inclui diversos herbívoros, coelho, cabrito, o tapiti (coelho do mato) a preá, e mesmo a capivara. Há também a turma da bolota, os cavalos e burros... e da bolotona, tão grande e mole que vira uma pasta, obra de boi e vaca. Toda essa turma come capim empacota e devolve assim.


Lagartas também fazem coco de bola, uma certa textura, como amoras secas, do tamanho de grão de bico, já o mandruvá faz umas bolinhas pequeninas, grãozinhos. Se houver muita embaixo de uma árvore, é garantia que a maioria da folhas estarão destruídas. Em casos de infestação muito grande pode o chão ficar forrado e os galhos pelados. É incrível como retiram tudo das folhas que comem. E fazem um coco sequinho. Dizem que as lagartas são as grandes responsáveis pela conversão de proteínas na floresta. Transformam celulose em proteína, e fazem a alegria dos passarinhos. São tão boas na arte de comer que muitos vespas plantam seus ovos no seio das lagartas e deixam que elas alimentem seus filhos com suas tripas.


Passarinhos que comem lagartas fazem preto e branco. Outros comem frutas e devolvem os caroços inteirinhos, estercados, prontos pra brotar. Aves grandes como o jacu, aquelas galinhas pretas de papos vermelho, fazem um amontoado de caroço, algumas vezes tão grandes que é impossível não pensar no tamanho do jacu. Desempenham um papel importante na disseminação das arvores. Zoocóricas. Fumo Bravo, por exemplo, é uma árvore que nasce por toda parte, passarinho come o frutinho e sai semeando por ai, as sementes brotam, crescem, anos depois os passarinho (e netos) voltam e comem os frutos, espalham as sementes e tudo gira...
 

Comer besouros não é uma tarefa fácil. Pode até ter um suquinho gostoso lá dentro, mas aquela casca, ai! Se você reclama por ter de engolir sapos, não imagina o que os sapos sofrem depois de engolir besouros.
 

Repare no coco de sapo cururu, meio gosmento, do tamanho de um charuto, mas se tomar uma boa chuva, resseca e fica limpinho e ai da pra identificar todas as casquinhas de besouro que ele comeu... é um verdadeiro festival de asas, pernas e antenas.
 

Carnívoros têm coco fedido. Cão e, especialmente, gato. Mas também as galinhas e angolas. Tudo bem; se o cãozinho se alimenta de ração tudo o que se pode esperar e um monte amorfo quase isopor, o mesmo vale pra galinha e pro gato. Agora se a ração tiver sido temperada com umas minhocas ou passarinhos... fedor na certa... carne tem esse cheiro. O cheiro de jaguatirica é notado a muitos metros de distância. Titica de galinha é o mais fedido, mistura de cheiro ruim com a vergonha de ter pisado.

Embaixo de uma teia de aranha de muitos anos pode se perceber uma mancha esbranquiçada, cheia de espirrinho. Aranha faz coco em jorro.Assim como o marimbondo. Não nos damos conta pois muitas vezes fica mimetizado, mas se cultivamos esses animais ao redor de nossas casas em pouco tempo veremos seus detritos.


A vida é assim entra por um lado, sai por outro. Tudo se transforma e assim se perpetua. Tudo morre e renasce e tudo se modifica. Tudo a mesma merda.






Por que observo aves?

Eu observo aves porque me sinto só. 

Solitário enquanto espécie, apartado da natureza pela cultura, isolado pela linguagem. Humanos podem conversar entre si, mesmo inimigos, mesmo que separados pela história, cultura, política. Entre dois humanos sempre existe a chance de uma conversa. A linguagem que nos une como espécie é a mesma que nos aparta da natureza. 

Diariamente, há mais de 50 anos, potentes radio-telescópios auscultam os céus em busca de algum sinal de uma vida inteligente (que tenha uma linguagem). Nada foi encontrado, nem um simples sinal, apenas silêncio. ETs também são parte da natureza e nem mesmo eles vieram falar conosco. Nada! Silêncio! Estamos sós! Terrivelmente sós.


Sabemos que baleias, golfinhos podem se comunicar, sabemos que pombos podem transmitir informações por vias culturais, mas nada disso é suficiente para nos integrar ao mundo animal. Continuamos absolutamente solitários em nosso balbucio. Claro que o comportamento animal é complexo e os significados inúmeros; claro que podemos entender, estudar e nos especializar em interagir com eles. Treinadores conhecem a fundo seus animais companheiros de trabalho. Etologia é uma ciência séria e muito aprendemos com o seu estudo! Ela é uma forma de manifestarmos a nossa compreensão dentro da nossa cultura. No entanto, falo aqui de uma outra dimensão maior que a etologia. Falo de um olhar não correspondido, de uma barreira imensa que nos separa. 



Pode-se retrucar que se eu tivesse um pouco de amor no coração, veria que nossos cães e gatos, companheiros do dia-a-dia podem, sim, compreenderem nosso sentimento e mesmo comunicarem-se de maneira efetiva. Sim, concordo, mas isso não significa qualquer entendimento nosso com o mundo animal. Pelo contrário, significa sim um cruel projeção de nossa psique sobre indefesos animais. Pets são uma forma de escravidão de nossa afetividade. Seres que perambulam como zumbis, enroscando-se aos nossos pés, mendigando afeto e alimento. Gatos tem personalidade, cães tem sexto sentido e emocionam no noticiário das sete ao ficar dias e dias parados a espera do dono, que morto e enterrado, jamais voltará, mas afora o que projetamos de nossa linguagem sobre eles, afora a casca do afeto, tudo que resta é o silêncio. 


A mesma linguagem que nos une com os pets, é que os prende e os condiciona. A liberdade de um animal selvagem é, enfim, a liberdade de não nos entender. Ninguém em sã consciência perde tempo observando pets. Gatos não tem nada a nos dizer, além de pobres metáforas de nossa subjetividade. OK, ok, com um pouco de boa vontade podemos ver uma pálida sombra do que foi o comportamento selvagem nesses animais domésticos. Domesticar é uma questão de compreensão e linguagem. Ninguém observa animais domésticos. Quando olhamos o gato fofinho que dorme enroladinho, observamos o humano que invade sua felina natureza perdida. Domesticar uma ave, então, é a suprema crueldade cognitiva, é roubar o direito a uma vida autônoma.

Mas veja bem, um mero tico-tico livre, selvagem, tem um repertório infinitamente mais rico se comparado com meus quatro gatos, que ainda assim insistem em comê-lo.



Observamos aves, pois elas nos contam histórias, nos abastecem de metáforas e de conhecimento. Observo aves, pois gosto do selvagem, do não humano. Quero enfim, me apartar da cultura. Entre um homem e uma ave livre não existe comunicação possível além do distanciamento e temor. Exatamente isso é que me encanta. Ao olhar uma ave livre imploro por esse estranhamento, que me inutiliza a cultura e me devolve à condição de natureza.








Observo aves, pois preciso me sentir vivo. Saber que alguém ainda é livre, que pode e vai voar, e sumir, desaparecer. Odeio ser guiado, passear com um guia ornitológico. Amo e odeio devo confessar. Odeio porque eles sempre sabem quem canta, e fazem aparecer aqui quem cantou. Que coisa mais aborrecida, previsível. Não! Quero andar sozinho, olhar pras aves com o mesmo sentimento que olho as árvores. Já viu alguém fazer playback de árvores? Algum Ipê respondeu? Alguma Peroba veio ver o que se tratava? Não! Não quero mais fazer playback, pois nesse simples ato a gente propõe uma comunicação com as aves. 


Não quero falar nada com os passarinhos, nem que estou invadindo seu território. Nem dizer que sou mais macho do que eles. De maneira alguma. Isso faria perder toda beleza e todo sentido do ato de observar.

Olho pra um passarinho pra esquecer da linguagem, pra esquecer do amor, do afeto, pra esquecer do humano. Quero ler somente seus traços de identificação, seu shape e fields marks. Quero que ave voe antes que eu a identifique. Quero um mundo onde o mistério ainda tenha espaço.


Não quero ver quem eu não vi, não quero buscar quem eu não observei. Quero andar no mato, livre e sentir que alguma liberdade ainda restou, liberdade de não saber, de não entender, de não identificar. Tudo bem se a minha lifelist sair prejudicada, tudo bem se faltarem algumas espécies. Nada mais aborrecido que tirar o olho do passarinho pra olhar o livro. Odeio guias de campo. Olhá-lo é perder tempo, perder concentração, perder o foco. Enfim, perder a urgência. Por isso mesmo eu odeio lifers. É muito melhor observar os passarinhos que já conheço e não perder tempo olhando pro livro pra tentar aprender ali na hora. Não quero tirar meu foco. Quero meus olhos livres de qualquer guia. Quero meus passinhos soltos, livres de qualquer linguagem.


Enfim, observar aves me traz o sentimento de urgência da beleza. O efêmero da vida. Ver ou não uma aves é questão de segundos. Elas voam... Se agora estão visíveis, em seguida desaparecem. É urgente desfrutar de sua beleza.




Grito Lancinante

Publicado originalmente na Atualidades Ornitológicas
Ajude a manter esse patrimônio da ornitologia brasileira

 

Grito Lancinante

Vista ao longe no alto de um morro, à direita, a pequena casinha domina a paisagem, destacando-se seu branco colonial contra a mata fechada. Ao fundo, no vale, a estradinha sinuosa que dá acesso a esse paraíso natural. Somente uma que outra curva aparece entre a vegetação. O riacho e suas pedras, se esgueiram por entre o vale e a mata, Uma pinguela faz o acesso à casinha e é nela que vemos um carro estacionar, depois de percorrer todo o vale, encoberto pela vegetação. Descem um casal e dois filhos que chegam para uma noite no pequeno chalé.

A pinguela tortuosa mete medo nos adultos e desperta o lado aventureiro das crianças, mochilas nas costas, camisas xadrez, botas novinhas, todos aqueles detalhes distinguem o casal de urbanos dos habitantes da região.

 
O sol se põe por entre as árvores, seus últimos raios são admirados pela família, lá do alto da varanda da casinha, pendurada acima das árvores. A noite cai implacável. Escura, negra, profunda. Agora a casinha é delineada apenas pelo contorno luminoso e tremulante da janela e da porta. Lá no telhado uma fresta entre telhas cria um brilho inexplicável. Luz tênue, amarelo no fundo negro.

Olhos de horror se abrem à esquerda do quadro... Um grito lancinante no meio da mata.
Barulho de um tremendo susto dentro da casa. Vemos olhos arregalados que enchem a janela. Um homem acende a lanterna e sai pela porta... A luz da lamparina espalha uma aura amarela na pequena porção da noite que mal consegue iluminar.

Trêmula, a luz da lanterna escrutina a escuridão. Partes da paisagem se revelam, outras permanecem misteriosas, encobertas na escuridão total.O medo e a insegurança diante dos perigos da noite transparecem no movimento trêmulo da luz da lanterna. Busca, busca, mas nada encontra... Volta para casa inseguro, caminhando de costas.

Todos estão na porta: O pai tateia o chão em busca da lanterna caída, a mãe segura a última vela. De repente mais um grito, o susto. A confusão derruba a vela. Escuridão total. Gritos das crianças revelam o estado de espírito da pobre família. Pai tenta acalmá-los. Em vão. A mãe tem crise histérica.

O escuro impede a compreensão do que se passa. Choro miúdo, passadas carregadas, a família se retira da casinha, entra no carro e parte pelo meio da mata. Vemos pedaços da lanterna e do farol se movimentando na escuridão.

O silencio se restabelece. Grilos ao fundo, o ruído do riacho, a luz de um novo dia se aproxima. Por entre os morros, mais um grito, muito próximo. Desta vez a luz permite vislumbrar uma árvore, é nela que vemos ao raiar do dia, uma coruja enorme. No toco seco vemos seu ninho.

Ela olha para o sol que se levanta e entra na cavidade onde vai dormir tranqüila, não sem antes dar mais um grito lancinante...


Porque passarinhar?

Oito Bons Motivos para Passarinhar

Versão livremente adaptada

1) Passarinhar aguça sua vista. Antes que você perceba, você aprende a ver a marca frontal de um Petrim, para distinguir do sempre tão ligeiro Pichororé, antes mesmo que ele vocalize, ou ainda, ser capaz de detectar uma faixinha branca no peito daquele andorinhão que passa voando em cima de sua cabeça, a 40 quilômetros por hora.

2) Passarinhar incentiva você a explorar o mundo: Você navega pra além da costa em barcos de pesca fretados com uns pescadores estranhos que ficam se perguntando por que alguém iria gastar 300 dólares para não pescar, mas para observar um bicho chamado Pardela-de-óculos, que ao ser encontrado, finalmente,  depois de nove horas de maresia, sejam simplesmente uns pássaros escuros que mergulham pels das ondas e desaparecem em menos de um minuto.

3) Passarinhar traz um assunto para escrever sobre. "Querida Mamãe, Como você está? Nada de chuva aqui no sertão, mas o Tijerila já chegou e eu fiz umas lindas fotos…

4) Passarinhar faz de você uma pequena autoridade no seu bairro. Gente que você nunca viu vai aparecer, de repente, com um filhote de sabiá que caiu do ninho, ou te encontrar no feice e perguntar: "Qual é a envergadura de uma Harpia ? "

5) Passarinhar ajuda você a valorizar um momento - tipo ao cair da noite, em junho, por exemplo, quando você o encontra no galho seco de uma árvore, com sua plumagem cinzenta e rajada, impávido, imóvel, um olho fechado e o outro te observando, o seu primeiro Urutau.

6)
Passarinhar lhe proporciona oportunidades de conhecer alguém como o meu amigo Rick Simpson, que empenha toda sua energia para observar todos os maçaricos  e aves aquáticas do mundo ao mesmo tempo que arrecada fundos para sua conservação e ainda diz… eu vou continuar procurando aquele maçarico-colhelheiro só por mais quinze anos e se eu não encontrar… eu tentarei por mais dez anos… Se até lá eu não encontrar… acho que vou desistir.

7) Passarinhar faz você ser politicamente ativo. Você vai escrever
posts extremamente bem argumentadas, movidos a adrenalina, no seu facebook, ou para seu vereador/deputado exigindo que algo seja feito para que as pessoas parem de soltar fogos de artfício, prender aves em gaiola,  contra a construção de condomínios, barragens,  a aplicação de inseticidas, desmatamento... 

8) Por fim, Passarinhar pode salvar sua vida. Um dia você vai estar voltando para casa do trabalho, deprimido. Seu filho está com gripe, a porcaria do carro está cm a embreagem estragada… e amanhã é o seu aniversário. Outro ano se passou e mais uma vez você não triunfou na sua vida... em nada, na verdade.

Então você olhar para o céu em desespero e logo ali, bem em cima de sua cabeça, uma bênção especial do espaço aéreo da cidade, é o mais belo pássaro do mundo! Com a cabeça branca perolada, asas preto-e- branco, longo cauda bifurcada, ela circula lentamente, uma centena de metros de altura, comendo libélulas, arrancando as asas e deixá-los vibrar para baixo.

Você joga a sua pasta na sarjeta, pegue a primeira pessoa que encontra, e grita: " Um gavião-tesoura! Um gavião-tesoura!" até que ele, finalmente, olha para cima e pisca os olhos, e descobre de repente que ele deve comprar um binóculo e tornar-se ele mesmo um observador de aves.



versão livre do original by Jack Conner,

12.02.2011

Ilustra Brasil II


Arte contra a gaiola!

Lúcia Brandão ®


Alecrim ®

Mais alguns excelentes trabalhos do IlustraBrasil.
Roberto Alvarez ®



Veja a exposição completa aqui:

Matilha Cultural

Rua Rego Freitas, 542 – São Paulo

Tel.: (11) 3256-2636

Horários de funcionamento: terça-feira a sábado, das 12h às 20h

Wi-fi grátis

Cartões: VISA (débito/crédito)

Entrada livre e gratuita, inclusive para cães

www.matilhacultural.com.br


Link

11.28.2011

Daniel Araujo

Arte contra a gaiola

Inédita exposição de ilustrações sobre aves em cativeiro


Sensacional a iniciativa da SIB - Sociedade dos Ilustradores do Brasil e da ANDA que realizam na galeria Matilha Cultural uma exposição de arte-ativismo, onde alguns dos melhores ilustradores brasileiros mostram o poder da arte como instrumento de consciência e educação ambiental.

Tayla Nicoletti


Com o tema Passarinho na Gaiola não Canta, Lamenta, a exposição traz um sensível retrato da cruel prática de aprisionar aves e mostra que muitas vezes o ser humano é mais prisioneiro que as aves que enjaula...

Chris Mazzotta

Avistar tem a honra de participar dessa iniciativa, oferecendo oficinas e palestras como a de Priscila Fernandes de ilustração para crianças, ou do ilustrador Rodrigo Leão com sua técnica de birdsketching e Vincent CurtLo (Ibama-SP) sobre Tráfico de Animais Silvestres




Ana Maria Moura

Vale a pena visitar! São trabalhos belíssimos, que emocionam pela sensibilidade a pungência do tema. O 8ºIlustraBrasil e a Mostra paralela Passarinho na gaiola não canta, lamenta estarão em cartaz a partir A mostra inaugura nesse ifm de semana e prossegue até fevereiro.


Matilha Cultural

Rua Rego Freitas, 542 – São Paulo

Tel.: (11) 3256-2636

Horários de funcionamento: terça-feira a sábado, das 12h às 20h

Wi-fi grátis

Cartões: VISA (débito/crédito)

Entrada livre e gratuita, inclusive para cães

www.matilhacultural.com.br







11.13.2011

Governar é construir estradas!

Memórias livres da inesquecível viagem com Ciro Albano e Edson Endrigo a Caetité, no rico sertão ornitológico da Bahia - Ilustre carona do Rei do Baião, Spix, Pacheco, Waldick Soriano e demais ornitólogos que desbravaram a BR030

A BR 030 é um mito na vida de todo mochileiro do Brasil. Qualquer hippye de beira de estrada, tipo "pirado em BR", sabe de cor a história dessa estrada improvável. Criada nos anos 70 pra ligar Brasília às minas de urânio na Bahia e às magníficas praias da península de Maraú, a estrada é um típico projeto clientelista interrompido por motivos eleitoreiros. Estrada inexistente em boa parte do trecho e bem asfaltada nos outros. Contradições de nosso Brasil varonil.

Por caprichos do destino já passei algumas vezes pela BR 030. No século passado com a ainda namorada cruzei o trecho central. Na década passada, com a família enfrentei os atoleiros da beira-mar. Agora, em meio à caatinga verdinha, o seu asfalto negro me leva rumo a Caetité. Velho Chico nos aguarda.

Quando estive por aqui a estrada era somente terraplenagem, mas BR também evolui e hoje o pavimento lisinho, do Lula, garante o rolar tranquilo de um urbano Dobló cheio de lentes, tripés, fotógrafos e birders. O ponteiro marca 140 km/h enquanto o sertanejo arretado pisa fundo no acelerador.

Seguimos sertão adentro. Ah... Essa vida pé-na-estrada... Em 1830 Spix e Martius por aqui passaram, depois veio Teodoro Sampaio e agora a gente. Seguimos em frente, vamos à procura de um obscuro tiranídeo, muito minúsculo, menor que um bico de harpia.

Eis, então, que Luiz Gonzaga, rei do baião, aparece numa curva do caminho e oferece a trilha sonora óbvia desse trecho.

"... Minha vida é andar por esse país... pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações..."

No sertão o sol também se põe, em certa hora a luz se acaba e com ela vai também a minha autocrítica. Agora faço parte de um conjunto patético de três birders cantarolando...

Corte rápido para um Brasil moderno. Já é noite em Caetité, cidade do futuro, em plena febre da mineração, da ferrovia e energia eólica. O recepcionista do hotel avisa que tem somente um quarto disponível... Pelo menos tinha quatro camas. Ufa! Seiscentos quilômetros de BR 030 desabam junto comigo em uma delas.

Manhã de passarinheiro não tem café. Nenhum hotel decente se digna a fornecer um breakfast pra esses malucos que acordam de madrugada. Que sacanagem! Resmungo enquanto engulo o café fraco, morno e envelhecido, padrão garrafa térmica de porteiro. Partimos.

Caetité é agradável, mistura passado e progresso, casarões e predinhos. O arretado Dobló desliza pela Avenida Waldick Soriano - ilustre filho da cidade. O clima é ainda ameno enquanto aguarda o sol.

Percorremos chapadões, grotas e campos. Transição de Caatinga a Cerrado e capões de mata úmida... O que será que Spix fazia nas madrugadas frias do sertão? Procurava a ararinha-azul, imagino, mas pra nós, viajantes do século XXI, tudo que restou é a suprema aventura de buscar um minitiranídeo, endêmico e raro. Um microscópio seria mais adequado, mas a resolução de 24 Mpixels e a lente 500 mm permitem uma esperança no enquadramento.

O resto você sabe, é scanner, induzir a resposta com glaucidium, afiar os ouvidos para identificar os presentes. Rotina de auscultar a caatinga, deitar um novo olhar sobre a vegetação. Incrível tudo o que tenho pra ver aqui, e que tantas vezes olhei e nunca vi.

Aprender é criar estradas! Nossa mente é uma BR 030, cheia de buracos, lacunas e também trechos pavimentados, de alta velocidade, é um projeto inconseqüente, de aprendizado mal planejado, saboroso e sofisticado. Observar é descobrir significado, é o saber reconectado... Onde antes havia cerrado, agora caatinga. Muita atenção, a mudança vem do chão... Solo alcalino se acidifica, a vegetação se modifica e no extrato superior os passarinhos vêm e vão. Vantagem das asas.

Tudo muda, depende do olhar. Nova descoberta: a esburacada estrada de terra, onde caminhamos, é na verdade um novo trecho da mesma BR! O campo aos poucos vira grota. O sol se levanta e a caatinga vira mancha de cerrado, ecótono de cigarras e barrigudas. E eu percebo aquela borboletinha no alto da árvore: É ele, o passarinho tão procurado!

Assim é o sertão: para os gananciosos é minério, para os pragmáticas é ferrovia. As mentes poéticas enxergam a beleza, as bregas, o Waldick Soriano. E eu, meio hippie, meio Spix, enxergo, finalmente, aquela ave amarelada, duas estrias brancas nas asas, cauda proeminente, sobrancelhas clara, bico afilado. Mais que tiranídeo, um rincociclídeo, pipromorfídeo. Resumindo, um "lifer”! Reconhecido, listado, anotado. Bem obervado, resisto à tentação tecnaturalista de fotografar... saboreio o momento, vivo o prazer e registro a memória

Mas vamos em frente que a BR nos espera! Que surpresas a ela nos reserva? Não saberei dizer. Só sei que para aquela antiga namorada, hoje companheira, eu levo um pacote de café, o "Saboroso de Caetité", uma bela cidade do sertão que nos deu os ilustres Anísio Teixeira, Waldick Soriano e Prisco Viana...

Simbora!

PS - Pra ser sincero, o café não era lá aquelas coisas, mas pelo menos estava quentinho, feito na hora.

PS2-Publicado inicialmente na secção TECNATURALISTA! da revista Atualidades Ornitológicas - 159 - assine a AO e ajude a manter esse ícone da ornitologia brasileira.