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Publicado originalmente an AO
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“As àrveres semos noses”
Construí minha casa embaixo de uma tipuana. Aqui nasceram meus filhos e fiz a minha carreira. Em sua sombra eu parava o carro, e ali mesmo ele foi roubado… que bom, abandonei o carro mas fiquei com a árvore. Meus vizinhos eram os passarinhos: sanhaço, bem-ti-ví e curruíra. À noite vinham os morcegos, mariposas e lagartixas que se aproveitavam da escura copa.
A tipuana tinha 15 anos. Era jovem, bem formada, tronco sadio. Uma bela árvore.
Mas uma ávore talvez não tenha direitos em uma sociedade mal educada, e por ser um pouco inclinada, com o tronco pendendo para a rua, a minha tipuana começou a colecionar inimigos. O pizzaiolo, o vendedor de pães, a vizinha gostosona e burra, o mecânico da moto, o sem-teto que invadiu a casa de frente. Todos olhavam com desconfiança para a minha casa, ali embaixo da tipuana: "… essa árvore vai cair, vai ser uma tragédia… vai destruir os carros, matar alguém…"
A ignorância mata, árvores não.
Ao contrário dos meus vizinhos a árvore é sábia e continua sua corrida rumo aos raios do sol. Meus aliados são os passarinhos, insetos, abelhas, aranhas, lagartos e toda uma fauna arborícola, na qual me incluo decididamente.
Morando ali eu aprendi sobre o inverno e verão: suas folhas eram o meu calendário e eu brincava de sincronizar com sua floração. Observando o movimento das folhas eu podia prever o tempo, numa espécie de barômetro biológico. Também os ventos predominantes - sul e noroeste - espalhavam em sua sombra um rastro de sementes e mudas…
Pois é, em tempos de aridez política, de ignorância expressa, é óbvio que meu sonho arborícola não poderia durar por muito tempo. Um dia parou um caminhão aqui em frente. Começaram a derrubar a minha árvore-casa. De nada adiantou protestar, a árvore era sadia, pois a sociedade está doente. Tronco sadio, copa sadia, livre de cupim, livre de podridão. Seu único mal era ser meio torta, meio inclinada pro meio da rua.
Mais de 30 homens, 3 caminhões. Cortaram a luz, furaram o cano, cortaram a água, cortaram o tronco, os galhos, as raízes. Por fim, amarraram a resistente raiz no caminhão, e puxa, e tranco, até que sai…
Árvore é como dente… a gente sente a perda e fica remoendo as lembranças a cada passagem da língua pela gengiva despovoada.
Hoje não tenho mais casa, mudei-me para a edícula, onde articulo meu plano de vingança. Sementes da tipuana, batatinhas de tiririca, mudas de quebra-pedra. Somente sementes resilientes nesse estado de guerra permanente. Jardinagem será minha guerrilha urbana.
Fumo-bravo não é a árvore mais linda do mundo, tiririca não é o orgulho do meu jardim, quebra-pedra tampouco. Mas os tempos são de guerra, e não escolhemos soldados. Se no campo a sucessão começa com as pioneiras, aqui na selva de pedra começa com as guerrilheiras.
Um comentário:
Cruiz credo!
Guerrilha neles, eles vão ver o que é bom.
Com essa turma de soldados a guerra tá vencida desde já.
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