1.11.2014

As arveres semos nozes

Publicado originalmente  an AO
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“As àrveres semos noses” 


Construí minha casa embaixo de uma tipuana. Aqui nasceram meus filhos e fiz a minha carreira. Em sua sombra eu parava o carro, e ali mesmo ele foi roubado… que bom, abandonei o carro mas fiquei com a árvore. Meus vizinhos eram os passarinhos: sanhaço, bem-ti-ví e curruíra. À  noite vinham os morcegos, mariposas e lagartixas que se aproveitavam da escura copa.

A tipuana tinha 15 anos. Era jovem, bem formada, tronco sadio. Uma bela árvore.

Mas uma ávore talvez não tenha direitos em uma sociedade mal educada, e por ser um pouco inclinada, com o tronco pendendo para a rua, a minha tipuana começou a colecionar inimigos. O pizzaiolo, o vendedor de pães, a vizinha gostosona e burra, o mecânico da moto, o sem-teto que invadiu a casa de frente. Todos olhavam com desconfiança para a minha casa, ali embaixo da tipuana: "… essa árvore vai cair, vai ser uma tragédia… vai destruir os carros, matar alguém…"

A ignorância mata, árvores não.


Ao contrário dos meus vizinhos a árvore é sábia e continua sua corrida rumo aos raios do sol. Meus aliados são os passarinhos, insetos, abelhas, aranhas, lagartos e toda uma fauna arborícola, na qual me incluo decididamente.

Morando ali eu aprendi sobre o inverno e verão: suas folhas eram o meu calendário e eu brincava de sincronizar com sua floração. Observando o movimento das folhas eu podia prever o tempo, numa espécie de barômetro biológico.  Também os ventos predominantes - sul e noroeste - espalhavam em sua sombra um rastro de sementes e mudas… 


 


Pois é, em tempos de aridez política, de ignorância expressa, é óbvio que meu sonho arborícola não poderia durar por muito tempo. Um dia parou um caminhão aqui em frente. Começaram a derrubar a minha árvore-casa. De nada adiantou protestar, a árvore era sadia, pois a sociedade está doente. Tronco sadio, copa sadia, livre de cupim, livre de podridão. Seu único mal era ser meio torta, meio inclinada pro meio da rua.

Mais de 30 homens, 3 caminhões. Cortaram a luz, furaram o cano, cortaram a água, cortaram o tronco, os galhos, as raízes. Por fim, amarraram a resistente raiz no caminhão, e puxa, e tranco, até que sai…

Árvore é como dente… a gente sente a perda e fica remoendo as lembranças a cada passagem da língua pela gengiva despovoada. 




Hoje não tenho mais casa, mudei-me para a edícula, onde articulo meu plano de vingança. Sementes da tipuana, batatinhas de tiririca, mudas de quebra-pedra.  Somente sementes resilientes nesse estado de guerra permanente. Jardinagem será minha guerrilha urbana. 



O exército está pronto para o ataque: erva de passarinho, fumo-bravo e cortina, assa-peixe, beldroega e dezenas de outras espécies sem nome, mas determinadas a espalhar a vida, contra o concreto. Cada fresta de muro, cada buraco no asfalto, cada pedacinho de terra exposta será semeado. Começamos pela calha do telhado da vizinha gostosona (e burra), depois, a caixa de passagem da pizzaria, a caixa de luz do sem-teto, o esgoto do mecânico de motos… 




Fumo-bravo não é a árvore mais linda do mundo, tiririca não é o orgulho do meu jardim, quebra-pedra tampouco. Mas os tempos são de guerra, e não escolhemos soldados. Se no campo a sucessão começa com as pioneiras, aqui na selva de pedra começa com as guerrilheiras. 



Um comentário:

Daniel Esser disse...

Cruiz credo!
Guerrilha neles, eles vão ver o que é bom.
Com essa turma de soldados a guerra tá vencida desde já.